artigos sobre linguagem


Semiose, de taxonomia a processo 


2013

Semiosis from taxonomy to process

versão original em inglês

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As categorias taxonômicas de Peirce para os signos são relidas de forma hierárquica e dinâmica, subsidiando, assim, a teoria de Deacon sobre os níveis auto-organizados e teleodinâmicos que compõem linguagem e pensamento, e que devem ser compreendidas enquanto processo.
Para a compreensão do artigo, é bom trazer à memória certos conceitos da semiótica perciana, principalmente de sua vasta taxonomia dos signos, que engloba:

  • 1) uma análise da natureza dos signos que os subdivide em representamen (o fundamento do signo em si), objeto (aquilo que ele representa) e
    interpretante (o signo replicado na mente que o interpreta).
  • 2) uma análise comparativa, na qual os signos dividem-se em quali-signos (mera qualidade não necessariamente instanciada), sin-signo (existente concreto) e legi-signo (lei geral e/ou convencional).
  • 3) uma classificação segundo o desempenho semiótico, quando os signos podem ser ícones, índices ou símbolos.
  • 4) e, enquanto signos do pensamento, podem ser: rema (possibilidade qualitativa, mero objeto possível), discente (também denominado dicisigno, é uma proposição ou quase-proposição de existência concreta) ou argumento (delomic, em alguns textos. É uma lei, uma convenção, representa sempre o objeto enquanto signo, tem premissa e conclusão, logo tem outros discentes e remas envolvidos).


Todas essas divisões devem ser entendidas como relações triádicas, onde o primeiro correlato (a primaridade) é o mais simples da natureza, a mera possibilidade; o segundo correlato (a secundaridade) é quase sempre uma existência concreta; e o terceiro correlato (a terceiridade) é uma lei, algo que validamos.
O artigo de Deacon resgata, de toda essa taxonomia da semiótica, duas contribuições vanguardistas de Peirce. A primeira, que há uma semiótica natural, biológica, penetrada em toda natureza e que é fundamento tanto da linguagem como do pensamento; a segunda, que o trabalho dessa semiose se complexifica (ou seja, evolui em qualidade e quantidade) a partir de suas próprias necessidades comunicacionais, estando a linguagem e o pensamento em um nível alto (o mais alto que temos notícia) de refinamento sob pressões evolutivas e de especialização para tais tarefas comunicativas, essenciais a um fenômeno mental que só faz, materialmente falando, processar informações.

Os multiníveis de seleção do sistema complexo da adaptação: o problema da origem da linguagem


tradução de Suely Figueiredo

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Teorias da origem da linguagem têm sido quase universalmente embaraços para a ciência empírica. Isso por que elas são tipicamente como narrativas exemplificando certas teorias linguísticas e comprometimentos filosóficos profundos em vez de esforços para entender o processo envolvido na geração deste fenômeno complexo único. A razão para essa tendência não é difícil de encontrar. Há uma quase completa ausência de evidência direta do próprio processo; um órgão complexo incompreensível (o cérebro) dá suporte à capacidade de adquirir e usar linguagem; e há muitas preconcepções que fazem fortes declarações sobre a natureza da linguagem e seu papel na singularidade cognitiva humana. Essas são restrições e tendências graves (embora em pelo menos uma dessas áreas – a neurociência – tem havido um progresso considerável no desenvolvimento de ferramentas criticas e no recolhimento de evidências relevantes). Esses limites têm autorizado a aceitação de um número consideravelmente maior de especulações nesta área do que em outras. Mas mesmo que alguns desses limites sejam removidos, e que dados relevantes, comparativos e sobre o desenvolvimento, linguísticos e neurológicos estejam sendo disponibilizados, creio que ainda estaremos cometendo erros fundamentais por preconceito teórico ou ingenuidade.
Em minha opinião, a maior falha desse empreendimento tem sido a falha no reconhecimento da complexidade total que o problema do evolucionismo nos traz. Isto está refletido na extraordinária e simples lógica evolucionária tipicamente oferecida pela descrição padrão da competência linguística dos humanos. Sem dúvida, creio que muita informação neurológica e linguística útil tem sido ignorada neste processo, enquanto características espúrias são consideradas importantes, precisamente porque tendemos a conceber a linguagem de um jeito que ignora a dinâmica complexa da auto-organização e evolução que constitui a própria essência deste arcabouço lógico.
A tendência em ignorar a complexidade evolucionária do problema é refletida na pletora de cenários baseados em (a) extrapolações do que se presumem ser tendências evolucionárias gerais ou então (b) algum tipo de causas especiais que chamarei de ‘
balas mágicas’.








O processo emergente do pensamento refletido no processa-mento linguístico


The emergent process of thinking as reflected

in language processing 

versão original em inglês

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Deacon apresenta argumentos que aproximam a estrutura da linguagem e a estrutura do pensamento, fazendo-as convergir em (ou melhor, co-emergir de) um processo de auto-organização dinâmico que deve ser percebido mais como um fenômeno próximo à embriologia do que como um algoritmo ou sistema de engenharia. Ao questionar por que nossas ciências da linguagem insistem em partir de elementos constitutivos da linguagem – como palavras e sentenças – para entender a lógica de encapsular conteúdos imagético-cognoscíveis em determinada sintaxe e semântica ao invés de adotar uma lógica orgânica que lhes permita perceber que a origem da linguagem está submetida ao mesmo tronco de restrições semióticas que gerencia a comunicação entre humanoides pré-linguísticos, Deacon constrói sua teoria.
Para ele, o refinamento da pressão comunicativa característica de nosso fenômeno mental, norteado pela dinâmica da auto-organização e da evolução, desenvolve, no cérebro e fora dele (pensamento e linguagem) uma nuvem de relações e signos que se especializam continuamente no compartilhamento de informações a partir das exigências do contexto e dos interesses presentes.
Deacon esmiúça a neurologia por trás desse refinamento, ressaltando que, embora ele pareça contínuo, é feito de saltos e sobressaltos como qualquer processo evolutivo. A natureza desse algo que se refina, dessa ‘unidade semiótica que gera a linguagem’, se revela em parte nos sintomas de certos danos cerebrais já identificados. Alguns comprometem a fluência linguística, embora o paciente identifique signos e tal. Outras comprometem a capacidade de escolha dos signos, e os pacientes falam fluentemente outras palavras ao invés das que pensam estar falando. Sintomas como esses pontuam o trabalho neurológico envolvido tanto no pensamento quanto na linguagem e levam o autor à elaboração de um novo entendimento.
Um paralelo linguagem-pensamento, que rechaça a noção de linguagem enquanto estrutura formal governadas por regras top-down, nos é oferecido sobre um fundo de intenso trabalho neurológico e de crítica às teorias da linguagem estabelecidas. É um paralelo de total inter-relação, emergente de uma dinâmica de auto-organização e evolução, só possível de ser abordado por uma lógica orgânica e acelerada, mas que merece a atenção dos que verdadeiramente buscam respostas.